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Anderson Horizonte
"Não é o que você acredita. É o que você faz!"
Textos
* Imagem do Google: Real Gabinete Português de Leitura - RJ



BIBLIOTECA DOS PUROS (Hollywood não esperava por essa)

Já era recorrente; todo santo dia!
Ela chegava às 19h.
Ele às 19:01h
Ela saia às 19:10h
Ele às 19:11h
No silêncio ensurdecedor da biblioteca lá estavam eles.
Próximos um do outro, nem tão perto, mas próximos.
Ela nunca se cansava de ler ‘Clarice’, não havia razão para a moça esconder a capa dos seus livros.
Já ele era um mistério, ninguém nunca via o que estava lendo. Drummond?
Sempre aparecia com um livro ‘capa preta’, aparentemente sem título.
Ela chegava em nuvens de algodão, serena e contida, ia até o corredor 3, pegava seu exemplar e sentava-se numa bela poltrona marrom, acolchoada, macia e confortável.
Ele, após adentrar ao recinto ia a passos largos até o corredor 2 e para cumprir com as formalidades, sentava-se em frente à moça.

A biblioteca era em parte charmosa; ao estilo século XIX, mas flertava com o século XXI. Nela havia um café e alguns redutos de espaço tecnológicos; para os que preferiam ficar conectados.
O salão de leitura parecia ter uns trinta metros quadrado.
Sempre tinha gente lendo algo, passando pra lá e pra cá com passos lentos e silenciosos, foleando algo... em suas mãos; livros, cadernos, celulares, leitores digitais... fones nos ouvidos, óculos dos mais diversos tipos, visuais modernos, singulares ou extravagantes, uns trocavam mensagens e risos com a tela do celular; outros tomavam café com delicadeza e sofisticação... tudo normal entre as diferenças.

A moça notava que estava sendo notada.
Ele percebia que ela percebia.
Ela olhava pro livro - ensaiava um riso.
Olhava pra ele - franzia a testa em vão, comprava pra si a dúvida, não conseguia ver o que o moço lia - voltava pro livro e sorria.
Ele olhava pra ela, inclinava o pescoço, coçava a cabeça, olhava pro livro.
O moço meio desajeitado não sabia conter seu riso.
Os dois já haviam se acostumado com a cômica do momento. Eram os dois – ainda sem saber - um romance, eram uma crônica sem argumento.
Pelo ‘inusitado’ ganharam de amigo o ‘Universo’ que dera a ocasião uma pitada a mais de charme, fazendo com que nunca cruzassem os olhares durante todos aqueles dias no salão da biblioteca.

Um olhava; o outro lia!
Um lia; o outro olhava.
E assim foi: Um dia, dois... cinco.
Dez!
Não sei mas o ‘Universo’ queria mais.
Tinha algo para eles. Os dois eram realmente diferentes dos outros. Nada de aparelhos tecnológicos, adornos extravagantes, suas roupas não propagavam marcas, o tênis dele era desgastado e o cadarço esfolava a língua de tão apertado.
Dia o rapaz estava descabelado, dia com cabelo lambido - chanel. Nos dedos; unha roída – ansiedade - nenhum anel.
Ela vinha às vezes de jeans de lavagem básica, tênis branco de sola alta, às vezes de vestido simples de tons claros e suaves, calçando All Star branco, usava um óculos tão estiloso que a transportava direto aos anos 60, 70!

Foi então que no décimo primeiro dia, quando chegaram à biblioteca, haviam mudado a disposição dos móveis. Como ela chegava um minuto antes, tomou ‘Clarice’ nas mãos e foi direto pro salão de leitura.
Arregalou os olhos.
Mordeu os lábios
Bateu os pés em agonia.
As poltronas eram, agora, em pares e não mais, individuais e um pouco distantes, umas das outras.
E, ‘pra piorar’ ou não, só havia um banco de madeira rustica, duplo, desocupado.
A menina acelerou em seus pés pequenos.
Sentou-se.
Abriu o livro e aguardou...
Ela já sabia o que viria pela frente.

Hoje era dia dele vir descabelado, o fez.
Apressou-se ao entrar. Pronto ele já podia ir pra sua leitura.
Olhou pro salão – lá de cima o ‘Universo’ gargalhou riu alto em sua expansão.
Os anjos também assistiam àquela comedia romântica - nem mesmo eles tinham um spoiler daquele ‘curta-metragem’.
No céu; silêncio.
Na biblioteca; batidas de pé no piso de taco. Mais rápidas e mais rápidas.
Ele mordia os lábios, coçava a cabeça e se descabelava ainda mais.
Um passo pra frente e o coração gelava.
Dois passos pra trás e o moço não se acalmava.
Ela olhou no relógio do salão.
Passou-se um minuto.
Ele pensou em desistir, virou pra trás e viu um ‘bonitão’. Ele sabia que o bonitão se sentaria ao lado de sua amada, então, ‘sem querer, querendo’ falou em voz alta numa cena muito engraçada:
- Ai caramba, tá bom que ele vai sentar com ela, nem a pau.
Ela ouviu.
Ela sorriu.
Colocou a mão na boca e sorriu.
Ele correu feito criança.
Sentou rápido sem notar que o banco era, agora, de madeira. Por dentro soltou mais uma pérola: “ai, não é tão macio quanto os antigos.
Os anjos riram feito criança e esperaram a próxima cena.
O ‘Universo’que assitia de camarote, encheu a mão de pipoca, mastigou e depois disse: "Hollywood não esperava por essa".
Os dois tocaram ombros e joelhos naquele banco apertado.
Ameaçaram se olhar. Desistiram.
Congelaram.
O moço pegou seu 'capa preta' e colocou bem em frente aos olhos, fez de uma forma que a moça não pudesse ver o que ele lia.
Ela deu de ombros fez uma cara linda de deboche e virou um pouquinho para o outro lado, em afronta. Pensou:
- Humm abusado, metido e atrapalhado... um bonito e charmoso atrapalhado. - Charmoso, bonito? Nãooo. - Humm aiaia vê se pode.
Foi pensando nisso e já se reposicionando, agora, para o lado do moço.

Ele olhava mais para ela, que para o seu livro. Foi se acalmando e cedendo.
Aos poucos foi abaixando o seu livro... respirou fundo e criou coragem.
Trocaram olhares arregalados. Seus corações eram montanhas geladas.
Ele coçou a cabeça e sorriu;
- oi – gargalhou.
Ela suspirou, ajeitou seus belos óculos e riu alto, também.
O moço falou:
- Por isso eu não conseguia ver o que você lia.
- Desculpe, não ouvi - ela respondeu.
- Seu livro, você sempre o lê de ponta cabeça? – gargalhou, o rapaz!
ela abaixou levemente o rosto e o olhou por cima dos óculos:
- Por isso a capa preta sem títulos???
- Não entendi! - Ele indagou.
- Que eu saiba agenda nem é objeto de leitura, tá! - Ela riu de volta, pra mostrar que ainda estava no jogo.
Sem magoas ou ressentimentos; eles riram juntos, riram alto, sem vaidade alguma.
No andar de cima, os anjos gargalharam.
Um pouco mais acima; o ‘Universo’ aplaudiu!!!

Olharam no relógio e haviam se passados 12 minutos, estavam atrasados. O combinado sem combinar, eram apenas 10 minutos – sem tirar nem pôr, metodicamente 10 minutos!

Voltaram correndo.
Pularam o muro.
Cada um foi pra um cantinho, trocaram as vestes pelo avental, sem falar um ‘a’ seguiram por um corredor gélido. Entraram na ponta dos pés cada um pro seu quarto; um na ala psiquiátrica masculina e o outro na feminina.
O prédio era gelado, com um ar pesado, o som se dividia entre ruídos e barulhos estranhos... Da janela do quarto a moça via o letreiro luminoso: Clínica Psiquiátrica

É claro que a moça não conseguia entender o que estava escrito, também, pudera, as letras estavam todas na posição "correta" fora postas lá, daquele jeito, para atender aos padrões dos "normais" e não dos "loucos".


Mas o letreiro não ficaria assim por muito tempo, afinal de contas, o moço de coração puro e apaixonado, estava disposto a tornar o mundo de sua amada de 'cabeça pra baixo' pois era assim que ela se sentia bem, era dessa forma que ela se encontrava. Vivia e se alegrava.

Começava ali a saga do rapaz em virar tudo que era escrito, deixando-as de pernas pro ar.
e assim ele o fazia.
Ela passava... já sabia... e ria.
Quando se cruzavam nos corredores gelados; se viam
À biblioteca à noite; escondidos ainda 'iam.
E nesse tik-tak; a vida aos loucos 'sorria’.
Enquanto os 'normais' se estressavam, se desgastavam na correria.

O filme terminou.
Um anjo chorou.
Um outro soluçou.
Teve um lá que graça achou.

A pipoca do 'Universo' acabou. Ele tomou o restante da coca e antes do último gole falou:
- Um brinde aos loucos - os últimos 'normais' que na terra sobrou".





Por: Anderson Horizonte

Instagram: @andersonhorizonte_escritor / @anderson_horizonte
Site do escritor: www.andersonhorizonte.com
Anderson Horizonte
Enviado por Anderson Horizonte em 31/01/2020
Alterado em 22/01/2021
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