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Anderson Horizonte
"Não é o que você acredita. É o que você faz!"
Textos
*imagem da internet


A CASA DE VIDRO - FINAL (VERMELHO ESCARLATE)


O sol deu bom dia aos corpos.
Era Domingo.
6:00... 7:00h
O relógio marcava 7:10h quando o corpo de Carla começou querer reagir.
Abriu um olho bem devagar, sua pálpebra parecia pesar uma tonelada - estava toda suja de sangue, teve dificuldade de enxergar. Ainda não conseguia se mover direito.

Pois é, sabe aquele lance do assassino sempre voltar à cena do crime? Então, às vezes acontece mesmo, às vezes...

Domingo 7:30h.

Lutando pela vida, Carla tentou juntar forças. Ficara estirada no chão por algumas horas. Por sorte, a posição que ela ficara, de alguma forma a ajudou para que não perdesse muito sangue. Viu o volume do celular no bolso de Duda, pegou o aparelho na mão, e sem saber no que daria só o que conseguia fazer era piscar a lanterna de tempos em tempos na direção da porta.

Até que, o brilho que batia sem querer num objeto metálico, era jogado pra direção da rua e despertou a atenção de um cão que passava por lá - o mesmo que assustara as meninas.
Seu latido estridente pôde ser ouvido na estrada de terra onde um rapaz fazia caminhada naquele belo domingo de sol, mesmo num dia ensolarado o homem vestia um agasalho de poliéster – Adidas, com capuz; próprio para corridas.
O jovem passou pelo barulho. Por um instante deu de ombros.
Mas quando olhou pra trás, o cão latia, agora olhando pra ele. Estranhamente o cão latia e corria na direção da casa, ia e voltava pra beira da estrada, o que chamou de vez a atenção do jovem corredor.
Voltou.
E logo na entrada do terreno, bem ao fundo, distante, viu dentro do box de vidro uma luz piscando.
Aproximou-se.
Mais perto.
Carla, mesmo sem forças, reconheceu o moço;
- Felip... - não tinha forças pra falar. Mas seus olhos demonstraram pavor.
Assim que chegou próximo à moça, o rapaz olhou ao redor e viu a carnificina.
Corpos.
Sangue.
Destruição.
Sinais de luta...
Tirou seu casaco, nesse momento ficou visível uma faixa em seu braço, na altura do tríceps. Até um pouco suja, ligeiramente avermelhada em um ponto.
Indicava sangue fresco.
O homem, ao mesmo tempo em que descia com seu casaco em direção à Carla, também olhava para os lados a todo o momento.

Iria sufocá-la e acabar de vez com as 'provas'? Iria socorrê-la e salvá-la?
Carla viu o brilho da faca que Amanda lhe deu na madrugada sangrenta. Lembrou-se da luta das amigas – pela vida. DA MORTE DAS AMIGAS – tentando sobreviver.
Não titubeou.
Quando Felipe se aproximou com o casaco em mãos, ela tirou força ‘da vingança’, o ódio foi o combustível naquele momento. Fúria, raiva, rancor!

Silêncio.

Respiração ofegante.

Então o barulho era o de alguém 'sufocando'.
Os olhos de Felipe arregalaram, o sangue escorreu pela boca e esguichou pela traqueia. O veículo vermelho escarlate começava a colorir o agasalho Adidas, o branco foi perdendo a pureza. Em poucos segundos já não se via mais sua alvura.
Não deu tempo de nada.
Nem uma palavra sequer.
A linguagem estava apenas nos olhos:
Os olhos castanhos esverdeados da menina, agora pareciam avermelhados, arregalados, enfurecidos. Queimavam, incendiava o rapaz!
Os de Felipe pareciam vender a dúvida... Por quê?
Pareciam! Sim, pareciam!

Morreu!

Carla ficou aliviada não sabia que ainda tinha forças.
- Acabou, meninas, acabou – balbuciou olhando pra Amanda, sentada... Morta. Olhou pra Duda que estava estirada em uma poça de sangue.
Chorou.

Gritou pela milésima vez.

O rádio de trabalho de Felipe estava no bolso, uma voz bem típica desse tipo de comunicação chamou:
- Felipe, já está chegando? [...] Vou com você à delegacia hoje. Pode ficar tranquilo. Aqueles porcos marginais não sairão impunes.
- Felipe consegue me ouvir?
...
- oi socorroooo, socorroo - Carla, mesmo destruída, com um tiro nas costas, que estava prestes a lhe custar à vida, pediu por socorro, mas não pode deixar de pensar na mensagem de voz.
- quem tá aí com você Felipe? – Oi, Felipe?
- Meu nome é Car... Carla. - a voz falhava, o tom abaixava...
- estou na casa de vid... desmaiou.

...

A polícia chegou uns 20 minutos depois.
O chefe de polícia nunca tinha visto uma cena daquelas.
Primeiro que não conhecia a propriedade ‘exótica’. Havia no local um carro detonado, uma clara tentativa de invasão por todos os lados da casa, arma de fogo, armas brancas e é claro; corpos, muitos corpos.
Sangue, muito sangue!

Os corpos: Um kamikaze no chão próximo ao carro que foi removido, muito sangue e um pescoço quebrado. Outro kamikaze morto; facadas, tiros, o corpo todo cortado das colisões, tanto no carro como também do choque com o vidro do quarto.
Duda estava estirada com um tiro no lobo temporal da cabeça. Ao lado, próximo dela; Camisa Polo tinha um tiro no peito, fatal, que Amanda - sentada com uma faca cravada em suas entranhas -, lhe dera.
E ainda tinha Felipe; com uma faca no pescoço, caído, já sem vida.
Carla, a única sobrevivente no local, no momento da chegada da polícia, começava a receber os primeiros socorros.
O colega de Felipe o reconheceu e chorou aos seus pés.
- Felipe, nãooo - se perguntava por que um cara tão bom morreria daquele jeito.
- Foram eles, senhor. - Daniel, o amigo de Felipe apontou para ‘Camisa Polo’ e os outros, - foram eles que arrumaram aquela briga no bar da ‘35’ ontem, eles que deram uma facada no braço do Felipe e me agrediram - disse o rapaz.
- E porque mesmo fizeram isso? - o policial, com uma cara fechada, questionou, antes de começar anotar tudo.
- o Felipe foi defender umas meni... elas! - talvez sejam elas - ele continuou:
- Esses caras começaram a beber e falaram que o Felipe tinha indicado umas gatinhas pra eles, que iam ter uma festinha no 36 ontem à noite... - dai o Felipe chamou um deles de ‘alcoólatra idiota’, desmentindo a história, dizendo que o bando, era quem haviam visto as garotas, pois estavam no carro de trás, no pedágio [...] - ai começou a briga... o dono do bar que é amigo deles, ao invés de separar ou chamar a policia, ajudou a nos agredir [...]

...

A essa altura, Carla, sendo socorrida, próximo de Daniel e do chefe de policia, preencheu seus olhos com lágrimas. Sua dor fora elevada ao cosmo. A dor da alma era maior que a dor da carne! Por fora; silencio. Por dentro; um grito ensurdecedor!
Suas amigas estavam mortas. Eram pessoas boas, do bem! E, para piorar tudo, ela era, agora, uma assassina, matara um homem inocente.
A moça que clamou tanto por ajuda matou quem viera lhe socorrer. Então, se dividia entre o pensamento de realmente ter imaginado Felipe como sendo o Coringa, acreditado ter salvo sua pele, e a realidade de ter matado um bom garoto. Ter lhe tirado a vida.
Olhou mais uma vez para os corpos; de Felipe, das amigas...
Mais uma vez chorou. Dessa vez, de soluçar!
Por dentro, a moça golpeou sua alma de culpa. ‘Arrancou’ seu coração com as mãos, saiu de cena deixando-o ali, em seu ‘habitat’ natural, rodeado de sangue, sangue inocente!

...

Enquanto a moça se dividia entre ficar estática, estarrecida e histérica, uma viatura foi até o bar da ‘35’, chegando lá encontrou o dono com um corte no braço e com mais alguns sinais que o fazia muito ‘culpado’... Acharam as roupas sujas de sangue no estabelecimento, mas a mascara de palhaço – como o Coringa que era - só foram encontrar dias depois, às margens da rodovia Anchieta, próximo À Casa De Vidro.

...

Pouco tempo depois o dono do bar viria a cumprir pena, mas apenas por agressão, ficando somente um ano detido. Associaram as roupas sujas e as marcas no corpo do homem à briga na noite de sábado – no bar.
Nos autos do processo, a defesa ‘mostrou’ não haver provas suficientes para que seu cliente fosse preso por assassinato. Junto a isso – não se sabe por que - a Justiça parecia não ter tanto interesse em ‘cavar’ fundo nessa triste e aterrorizante história.

...

Eduarda, Duda ou mesmo Faísca, como queiram lembrar-se dela, recebeu uma bela homenagem da loja onde trabalhava, no shopping; ainda foi eleita a melhor vendedora daquele mês – que ainda não havia fechado, mas dessa vez, infelizmente, pela última vez foi homenageada.
A jovem ruiva que se comunicava tão bem fora calada, silenciada pela covardia.
Deixou um legado de alegria e espontaneidade. Sempre muito comunicativa, cativava a todos ao redor. Essa foi a marca deixada.

...

Amanda! Lutou com todas as suas forças e graças à sua fibra, garra e a sua vontade de viver, conseguiu matar quem pensava ser seu algoz. Pela conduta e postura, ao menos uma das amigas pôde sair com vida da casa de vidro. Moça correta e inteligente.
Amanda deixou uma marca forte, de fibra, mas esta marca era pintada em tons pasteis pela sua doçura, seu altruísmo... Por sua decência.

...

Felipe; ‘o moço da cabine 5’, como era conhecido por muitos. Era contido nos hábitos e gestos. Deixou um ótimo modelo de vida; respeitoso que era só havia elogios a seu respeito.

...

Carla, ‘a patricinha dos filmes hollywoodianos’, uma menina dentro de uma mulher... a veia humorística do ‘bando’ - como elas brincavam -, a única sobrevivente daquele passeio ‘sem fim’, hoje responde em liberdade já que a cena do crime estava toda confusa e bagunçada - a mesma faca com que ela matara Felipe, também tinha as digitais das outras moças. E ainda havia uma outra faca com as digitais do ‘Camisa polo’.
Ela não mentiu sobre o que aconteceu... Mas, também, não falou toda a verdade. Contou ‘tudo’ desde o início para a polícia...
Não omitiu nada; da saída de suas casas até o fatídico domingo, mas se calou ao lembrar-se do que acontecera naquela manhã de sol. A moça não revelou mais nada. Ela simplesmente; se calou!
Por vontade própria, sim!
Impulsionada pelo trauma das atrocidades que passou? Talvez!
Não sabemos exatamente o que a fez travar; a morte cruel de suas amigas ou o assassinato a sangue frio, que cometera?
Talvez nunca saibamos ao certo!

...

Passado uns meses, a moça que era só alegria, piadas e gracejos, ainda estava brigada com o riso. Terapia; sessões e mais sessões com Psicólogos, Psiquiatras... e nada! Ela fazia jus a sua nova tatuagem, feita recentemente.
No pulso direito a tinta preta impregnada na segunda camada da pele, gravava um anagrama, que mais parecia um ‘código de barras’, em letras e números ao estilo ‘1942 REPORT’, a sequencia enigmática tatuada era:

8A1C4D5E1F2I2L3M2N4O1P1Q4R2S2U01112249(P.S.)2A1E4M2N5O2R4S1T

Só Carla sabia decifrar o código tatuado em sua pele... AINDA BEM!


FIM


EPÍLOGO


DEZEMBRO DE DOIS MIL E VINTE - 1 ANO DEPOIS –, Coringa, sim, Coringa estava livre.
...
SBC - SP
Bar 35
No balcão havia um laptop ligado, os poucos clientes – debruçados - não podiam ver o conteúdo do mesmo, pois o eletrônico estava virado para o dono da 'espelunca' que se alternava em abastecer a sede dos alcoólatras e finalizar o anúncio:

“Aluga-se linda chácara em São Bernardo do Campo – SP, para o Réveillon de 2020. Interessados chamar ‘inbox’!


A CASA DE VIDRO


Por: Anderson Horizonte
Instagram: @andersonhorizonte_escritor / @anderson_horizonte
Site do escritor: www.andersonhorizonte.com


 
Anderson Horizonte
Enviado por Anderson Horizonte em 07/08/2020
Alterado em 15/04/2021
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