Geladeira Bege
(A Dama)
A Noite dorme em maus lençóis
(O Trabalhador)
O Sol pula cedo da cama, com um calor insuportável
(O senhor)
O Vento reclama das folhas nas ruas num outono que ele mesmo assoprou
(A senhora)
A Chuva molha suas roupas e as põe pra secar atrás de uma “geladeira bege”
(O jovem)
O Frio com sua preguiça, mais uma vez, toma o ônibus atrasado.
(A moça)
O Verão, ah, o verão, se vira na areia, pra lá e pra cá, almejando o bronzeado.
(A Mãe)
A Neve, com seu esqui, óculos e roupas sobre roupas, quando soube, desceu, rápido feito avalanche.
(A criança)
O Fogo foi confiar... botos as mãos no bolso e, é claro que se queimou. Mas tem tempo pra aprender.
(O pai)
O Céu ficou até tarde na festa com seu carrinho de algodão doce, enrolando nuvens num palito
(Os Avós)
A Vitrola marcou encontro, tocou a canção favorita e na hora certa, lá estava no “Ponto” do crochê.
(O Bebê)
O Livro chora ou ri na página 30, e olha que ainda está bem longe do final. Um final que nem ele sabe.
(A Vida)
A Esperança, numa cadeira de camping, esperou sentada, vez ou outra se levantava, se despreguiçava, jogava uma pedra no lago e a via beijar a tensão superficial da água, sem pressa, uma, duas, três vezes.
O Sonho foi se deitar cedo, aproveitou o clima ameno, o silêncio e a lua lá fora, cansado de dias e dias de obra, já tinha feito a sua parte, era só fechar os olhos e aguardar a sua hora!
A Fé... ah, a fé juntou as mãos, dobrou os joelhos em oração. Já havia “sonhado, feito e esperado”. Ela sabia que, mais cedo ou mais tarde colheria bons resultados. Olhou para o céu e sorriu por tudo que já tinha de bom, e, pensou: “muito importante hoje, é, eu já saber ser grato.
Por Anderson Horizonte, autor do romance "Rios de lembranças" e da coletânea poética "Amores Engavetados"
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